Domingo tem um cheiro diferente... mas a preguiça é a mesma
Acordar hoje foi uma batalha.
O corpo travava um cabo de guerra entre a necessidade de sair para trabalhar e a vontade de ficar em casa. Qualquer desculpa servia:
"Tá chovendo..." — mas era só uma garoa leve. "Preciso abastecer a moto..." — mas isso levaria só uns minutinhos.
O cérebro jogava contra, procurando qualquer justificativa para não sair. Mas não teve jeito. A necessidade falou mais alto.
Vestir a calça de trabalho foi o ponto final dessa briga interna. Não sei explicar, mas depois que coloco essa calça impermeável e térmica, meu corpo simplesmente aceita que não tem volta. Já era. O dia começou.
O peso da indecisão e a briga com a própria cabeça
Antes de sair, minha mente ainda tentava me enrolar. O corpo já estava pronto, mas a cabeça insistia em encontrar algo para atrasar a saída. Olhei pro celular, fiquei ali mexendo sem propósito, depois fui ajeitar alguma coisa que nem precisava ser ajeitada.
Já aconteceu de entrar numa videolocadora e, de tanto olhar as opções, a barriga começar a revirar? Pois é, comigo acontece o mesmo quando fico nesse limbo entre "agora eu vou" e "só mais um minutinho".
E tem outra coisa... Parece que quanto mais eu demoro pra agir, mais o corpo reage. Como se fosse uma regra não escrita do universo: ficar empurrando as coisas faz a ansiedade bater no estômago.
No fim das contas, parei com a enrolação. Já estava vestido, já tinha decidido. O dia estava rolando... Agora era só seguir.
O cheiro do domingo
Tem algo diferente no ar. O domingo chega sem pressa. Dá pra sentir antes mesmo de sair de casa. O barulho da cidade é outro — menos motores, menos buzinas, um silêncio diferente que parece deixar o dia mais comprido.
O vento sopra mais calmo, e até a luz do sol bate diferente. As pessoas andam devagar, sem a pressa dos dias úteis. Famílias passeiam juntas, casais caminham sem destino, crianças brincam nas praças. Parece que o ritmo do mundo muda um pouco.
Mesmo o cheiro do ar é outro. Não tem aquele aroma de café passado e pão fresquinho, como no Brasil. No Japão, o domingo tem cheiro de dashi, aquele caldo de peixe que escapa pelas janelas das casas, misturado ao adocicado do teriyaki sendo preparado em algum restaurante. Às vezes, um aroma de arroz recém-cozido se mistura, dando aquele toque familiar.
Os domingos no Japão carregam uma tranquilidade que, ao mesmo tempo, traz leveza e uma pontada de melancolia. Como se o dia inteiro fosse uma pausa... Um intervalo antes de tudo recomeçar.
O costume das saias no frio
Durante as entregas no frio, enquanto meus dedos congelam mesmo com luvas, vejo japonesas jovens andando de mini saia, as pernas completamente de fora, sem nenhuma proteção aparente. E o mais impressionante: sem demonstrar o menor incômodo.
Sempre me espanta essa resistência. Eu, empacotado com camadas de roupa térmica, e elas ali, como se o frio não existisse. Já ouvi dizer que acostumaram desde a escola, que enfrentam o inverno assim desde novas. Outros falam que é questão de costume, de adaptação.
O engraçado é que, tempos atrás, eu mesmo andava de manga curta no inverno de Curitiba. Meu filho também... não importava se era verão ou inverno, ele sempre estava de camiseta. Mas aqui, no meio desse frio cortante do Japão, eu olho essa cena e não tem como não admirar. É algo que definitivamente não dá pra entender só olhando.
Rotina de entregas quebrada
A rotina do dia estava tranquila... até que um segurança do estacionamento resolveu transformar uma coisa simples em um escândalo.
Tem um local cheio de restaurantes onde sempre pego entregas, mas parar ali é um desafio. Numa dessas viagens, achei um cantinho onde não atrapalha ninguém, e o próprio guardinha disse que, se fosse rápido, não teria problema. A partir daí, nunca deu encrenca.
Mas hoje o guardinha de sempre não estava lá – e no lugar apareceu um senhor berrando comigo, como se eu tivesse cometido um crime.
Passei reto, fui pegar minha encomenda e ignorei completamente.
Isso só fez ele ficar mais irritado.
Entrei na loja, peguei a encomenda e, quando voltei para a moto, a cena já tinha mudado. Chamaram reforço. Agora eram três guardinhas, mais um cara que parecia ser o gerente do lugar. Todos me esperando.
Antes mesmo de alguém abrir a boca, me adiantei: — Eu sei que não pode parar aqui. Parei porque tava com pressa e nem percebi.
Na minha cabeça, passou a ideia de dizer que o outro segurança sempre deixava, mas achei melhor não complicar o cara. Então, só completei: — Aquele senhor ali veio gritando como se eu fosse um bandido. Por isso eu o ignorei.
O gerente percebeu a cagada, respirou fundo e pediu desculpa. Virou o jogo, nem vi a cara deles e saí.
E o segurança, que antes tava se achando o dono da verdade, ficou calado.
O PIN errado e o café no frio
Peguei a entrega e fui procurar o endereço... Mas o PIN do mapa estava errado. Já sou meio veiaco nessas coisas, então dei uma volta pelo quarteirão, analisando as casas, e acabei achando o lugar certo. Pelo jeito, o cliente estava me acompanhando pelo aplicativo, porque assim que parei, ele mandou uma mensagem.
"Go to the left side."
Em inglês.
Respondi no mesmo idioma:
"Thanks for teaching me. I'm already in front of your house."
Assim que terminei de digitar, ele abriu a porta. Nem precisei tocar a campainha, já estava na espera.
A entrega era uma daquelas com código. Conferi, passei pra ele e pronto. Mas aí veio a pergunta:
— Quanto que é?
Expliquei que já estava pago no cartão. Ele deu uma travada:
— Ah, ainda não é? Como assim?
Fui mais direto:
— O pagamento já foi feito pelo aplicativo.
— Ah, tá... Então está aqui.
E me passou uma moeda de 500 ienes.
Antes de eu ir embora, ainda soltou:
— Vai tomar um café lá também, nesse frio.
No fim, além de completar mais uma entrega, ganhei um trocado na boa e ainda saí com um café na conta.
Conclusão
Cada entrega tem uma surpresa. Às vezes, a surpresa é um perrengue; outras, é um gesto simples que faz o dia valer a pena.
Pequenas ações dizem muito. Enquanto alguns gritam e tentam se impor à força para se sentirem grandes, outros simplesmente reconhecem o esforço do outro e demonstram isso de forma genuína.
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